UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Prece



Senhor, que és o céu e a terra,
que és a vida e a morte!
O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu!
Tu és os nossos corpos e as nossas almas
e o nosso amor és tu também.
Onde nada está tu habitas
e onde tudo está - (o teu templo)
- eis o teu corpo.

Dá-me alma para te servir
e alma para te amar.
Dá-me vista para te ver sempre no
céu e na terra, ouvidos para te ouvir
no vento e no mar, e meios para
trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e alto
como o céu.
Que não haja lama nas estradas dos
meus pensamentos nem folhas mortas
nas lagoas dos meus propósitos.

Faze com que eu saiba amar os outros
como irmãos e servir-te como a um pai.

Minha vida seja digna da tua presença.
Meu corpo seja digno da terra, tua cama.
Minha alma possa aparecer diante de ti
como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol,
para que eu te possa adorar em mim;
e torna-me puro como a lua, para que
eu te possa rezar em mim;
e torna-me claro como o dia para que
eu te possa ver sempre em mim
e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me.
Dá-me que eu me sinta teu.
Senhor, livra-me de mim.


(Autor: Fernando Pessoa)

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