UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

sábado, 14 de agosto de 2010

Grãos de Areia

Somos todos tão iguais
e nos vemos tão diferentes!
E quando nossos sentimentos se cruzam
com o que lemos ficamos surpresos...
Não somos os únicos a sentir dor;
não somos os únicos a sentir medo, insegurança...
não somos os únicos a temer o desconhecido,
a sentir decepção,
a chorar de tristeza,
a ficar na dúvida,
a não saber que decisão tomar
e recear ter feito a escolha errada...
Sofremos mais porque nos vemos sós.
Porque temos dificuldade em imaginar que
outras pessoas passem por caminhos parecidos com os nossos.
Porque nos fechamos no nosso quarto e em nós...
nos sentimos tão miúdos que dificilmente
imaginamos que fora da nossa janela
outros seres sentem-se pequenininhos também,
cada qual sozinho na sua dor e solidão.
A auto-piedade que nos devasta,
assola milhares de eus espalhados por aí.
Vistos do alto,
somos apenas pequenos pontos,
grãos de areia no mar da vida,
tremendamente parecidos.
E a chuva, quando rega a terra,
não escolhe cabeça;
o sol ilumina tudo por igual
e a lua pode encantar qualquer um.
Somos todos sim iguais na alma,
na pequenez e na grandeza;
Eu choro também, me comovo,
morro um pouquinho a cada dia
e renasço na minha fé.
Desanimo de vez em quando
e ergo a cabeça logo depois;
espero impaciente o nascer do dia
e faço planos pro dia seguinte.
Me faço mil perguntas para as quais não encontro respostas.
Somos assim,
tão iguais eu e você e tantos outros!...
A prova disso é que você se identifica com o que digo.
Se a emoção que aperta meu peito,
aperta o peito de quem me lê,
é porque somos feitos do mesmo barro.
E se posso ver e crer na vitória
e ultrapassar meus limites é porque todo mundo,
cada um pode.
Podemos conjugar todos os verbos em todos os tempos!
É verdade que o sol não nasce
e não se põe pra nós no mesmo momento,
mas isso não muda em nada a verdade
de que somos assim maravilhosos
e importantes grãozinhos de areia aos olhos de Deus.

(Autora: Letícia Thompson)

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