UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O Pássaro da Alma

No fundo, bem lá no fundo do corpo,
mora a alma.
Ainda não houve quem a visse,
mas todos sabem que ela existe.
Como também sabem o que lá tem dentro.
Dentro da alma, bem lá no centro,
pousado numa pata está um pássaro.
E o nome do pássaro, é o pássaro da alma.
E ele sente tudo o que nós sentimos:
Quando alguém nos magoa,
o pássaro da alma agita-se
para lá e para cá.
Em todos os sentidos no nosso corpo
e sofre muito.
Quando alguém nos ama,
o pássaro da alma dá pulinhos de contente,
para trás e para a frente,
vai e vem.
Quando alguém nos chama,
o pássaro da alma põe-se logo à escuta
da voz a fim de reconhecer que tipo
de apelo é.

Quando alguém se zanga conosco,
o pássaro da alma recolhe-se
dentro de si tristonho e silencioso.
E quando alguém nos abraça,
o pássaro da alma
que mora no fundo,
bem lá no fundo do corpo
começa a crescer, crescer,
até encher quase todo o espaço
dentro de nós.
Tão bom é para ele o abraço.
Dentro do corpo, no fundo,
bem lá no fundo, mora a alma.
Ainda não houve quem a visse,
mas todos sabem que ela existe.
E ainda nunca,
nunca veio ao mundo alguém
que não tivesse alma.
Porque a alma entra dentro de nós
no momento em que nascemos
e não nos larga
- NEM UMA SO VEZ -
até ao fim da nossa vida.
Como o ar que o homem respira
desde a hora em que nasce
até à hora em que morre.
Decerto querem também saber
de que é feito o pássaro da alma.
Ah! isso é mesmo muigto fácil:
É feito de gavetas e mais gavetas.
Mas não podemos abrir as gavetas
de qualquer maneira,
pois cada uma tem uma chave
para ela só!
E o pássaro da alma é o único capaz
de abrir as gavetas dele.
Como?
Pois isso também é muito simples:
com a segunda pata!
O pássaro da alma está pousado
numa patae com a outra
- que em descanso está dobrada
sobre a barriga -
roda a chave da gaveta que quer abrir,
puxa pelo puxador,
e tudo o que está dentro dela,
sai em liberdade para dentro do corpo.
E como tudo o que sentimos
tem uma gaveta,
o pássaro da alma tem imensas gavetas.
A gaveta da alegria
e a gaveta da tristeza.
A gaveta da inveja
e a gaveta da esperança.
A gaveta da desilusão
e a gaveta do desespero.
A gaveta da paciência
e a gaveta do desassossego.
E mais a gaveta do ódio,
a gaveta da cólera e a gaveta di mimo.
A gaveta da preguiça
e a gaveta do vazio.
E a gaveta dos segredos mais escondidos,
uma gaveta que quase nunca abrimos.
E há mais gavetas
vocês podem juntar todas
as que quiserem.
Às vezes uma pessoa pode escolher
e indicar ao pássaro
as chaves a rodar e as chaves a abrir
e outras vezes é o pássaro quem decide
Por exemplo: a pessoa quer estar calada
e diz ao pássaro para abrir
a gaveta do silêncio.
Mas ele, por auto-recriação,
abre-lhe a gaveta da fala,
e ela desta a falar a falar sem querer.
Outro exemplo: a pessoa quer escutar
pacientemente - e em vez disso
ele abre-lhe a gaveta do desassossego
que faz com que ela se enerve.
Acontece que a pessoa tem ciúmes
sem qualquer motivo
e que estrague quando justamente
mais quer ajudar.
Porque o pássaro da alma nem sempre
é disciplinado e dá-lhe trabalhos...
Agora já compreendemos que cada homem
é diferente do seu semelhante.
Por causa do pássaro da alma
que tem demtro de si.
O pássaro que em certas manhãs
abre a gaveta da alegria,
e a alegria jorra dela para dentro
do corpo e o dono dela fica feliz.
E quando o pássaro lhe abre
a gaveta da raiva,
a raiva escorre dentro dela
e domina-o totalmente.
E até que o pássaro volte a fechar
a gaveta ele não pára de se zangar.
E quando o pássaro está de mau humor
abre gavetas que dão mal estar.
E quando o pássaro está de bom humor,
abre gavetas que fazem bem.
E o mais importante
- é escutar logo o pássaro.
Pois acontece o pássaro da alma
chamar por nós e não o ouvirmos.
É pena, ele quer nos falar
de nós próprios.
Quer falar-nos dos sentimentos
que estão encerrados dentro de nós.
Há quem o ouça muitas vezes
Há quem o ouça raras vezes.
E há quem o ouça
UMA ÚNICA VEZ NA VIDA!
Por isso vale a pena
Talvez tarde pela noite,
quando o silêncio nos rodeia,
Escutar o pássaro da alma
que mora dentro de nós, no fundo,
bem lá no fundo do nosso corpo.

(Autor: Michal Snunit)

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