UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Não te Deixarei Morrer, David Crockett - (Trecho do Livro)


[...]E foi assim que descobri que
todas as coisas continuam para sempre,
como um rio que corre ininterruptamente para o mar,
por mais que façam para o deter.
Sabes, quem não acredita em Deus,
acredita nestas coisas,
que tem como evidentes.
Acredita na eternidade das pedras
e não na dos sentimentos;
acredita na integridade da água,
do vento,
das estrelas.
Eu acredito na continuidade das coisas que amamos,
acredito que para sempre ouviremos
o som da água no rio
onde tantas vezes mergulhámos a cara,
para sempre passaremos pela sombra da árvore
onde tantas vezes parámos,
para sempre seremos a brisa que entra
e passeia pela casa,
para sempre deslizaremos
através do silêncio das noites quietas
em que tantas vezes olhámos o céu
e interrogámos o seu sentido.
Nisto eu acredito:
na veemência destas coisas sem princípio nem fim,
na verdade dos sentimentos nunca traídos.
E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe,
como o som do mar imaginado dentro de um búzio.
Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias,
num mar de Setembro,
com cheiro a algas e a iodo.
E de novo acredito
que nada do que é importante
se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos,
julgando ser donos das coisas,
dos instantes
e dos outros.
Comigo caminham,
todos os mortos que amei,
todos os amigos que se afastaram,
todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada,
apenas a ilusão de que
tudo podia ser meu para sempre.
(Autor: Miguel de Sousa Tavares)

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