UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Ausência





Eu deixarei que morra em mim 
o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão
 a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualque
r coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe 
o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em
 meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim 
como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota 
de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha 
carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás
 a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos 
e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
 Porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na 
face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram 
os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência
 do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros 
nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como
 ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, 
do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, 
a tua voz ausente, 
a tua voz serenizada.

(Autor: Vinícius de Moraes)

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