UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Deus




 Mesmo para os descrentes há a pergunta duvidosa: 
e depois da morte? 
Mesmo para os descrentes há o instante de desespero: 
que Deus me ajude. 
Neste mesmo instante estou pedindo que Deus me ajude. 
Estou precisando. 
Precisando mais do que a força humana. 
E estou precisando de minha própria força.  
Sou forte mas também destrutiva. 
Autodestrutiva. 
E quem é autodestrutivo também destrói os outros. 
Estou ferindo muita gente.  
E Deus tem que vir a mim, 
já que eu não tenho ido a Ele.
 
Venha Deus, venha. 
Mesmo que eu não mereça venha.
Ou talvez os que menos merecem precisem mais. 
Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: 
nunca feri de propósito. 
E também me dói quando percebo que feri.
Mas tantos defeitos tenho. 
Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. 
Embora amor dentro de mim eu tenha. 
Só que não sei usar o amor: às vezes parecem farpas. 
Se tanto amor dentro de mim recebi 
e continuo inquieta e infeliz 
é porque preciso que Deus venha. 
Antes que seja tarde demais.

(Autora: Clarice Lispector)

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