UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

domingo, 17 de junho de 2012

Alquimia do Verbo



   Para mim. A história das minhas loucuras.    
Há muito me gabava de possuir todas as paisagens possíveis,
 e julgava irrisórias as celebridades da pintura e da poesia moderna.   
Gostava das pinturas idiotas, em portas,  
decorações, telas circenses, placas, iluminuras populares; 
a literatura fora de moda, o latim da igreja,
 livros eróticos sem ortografia, 
romances de nossos antepassados, 
contos de fadas, pequenos livros infantis, velhas óperas, 
estribilhos ingênuos, ritmos ingênuos.      
Sonhava  com as cruzadas, viagens de descobertas 
de que não existem relatos, repúblicas sem histórias, 
guerras de religião esmagadas, 
revoluções de costumes, deslocamentos de raças e continentes:
 acreditava em todas as magias.      
Inventava a cor das vogais!
 - negro E branco, I vermelho, O azul, U ver- de. 
Regulava a forma e o movimento de cada consoante, e , 
com ritmos institivos, me vangloriava de 
 ter inventado um verbo poético acessível, 
um dia ou outro, a todos os sentidos. 
Era comigo traduzí-los.
 Foi primeiro um experimento. 
Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível.
 Fixava vertigens.
 
(Autor: Jean-Nicolas Arthur Rimbaud - Tradução de Paulo Hecker Filho)

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