UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

domingo, 17 de junho de 2012

Papoulas de Julho



Ó  papoulinhas, pequenas flamas do inferno,
Então não fazem mal?
 
Vocês vibram.
 É impossível tocá-las.  
Eu ponho as mãos entre as flamas. 
Nada me queima.
 
E me fatiga ficar a olhá-las 
 Assim vibrantes, enrugadas e rubras,
 como a pele de uma boca.
 
Uma boca sangrando. 
 Pequenas franjas sangrentas!
Há vapores que não posso tocar.  
Onde estão os narcóticos, as repugnantes cápsulas?
Se eu pudesse sangrar, ou dormir!  
Se minha boca pudesse unir-se a tal ferida!
Ou que seus licores filtrem-se em mim, 
nessa cápsula de vidro, 
 Entorpecendo e apaziguando. 
 Mas sem cor. Sem cor alguma.

(Autora: Sylvia Plath - Tradução de Afonso Félix de Souza)

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