UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

domingo, 17 de junho de 2012

Aos Olhos Dele



Não acredito em nada. As minhas crenças
         Voaram como voa a pomba mansa;
         Pelo azul do ar. E assim fugiram
         As minhas doces crenças de criança.
        Fiquei então sem fé; e a toda a gente         
Eu digo sempre, embora magoada:         
Não acredito em Deus e a Virgem Santa         
É uma ilusão apenas e mais nada!
        Mas avisto os teus olhos, meu amor,         
Duma luz suavíssima de dor...         
E grito então ao ver esses dois céus:
        Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa         
Que criou esse brilho que m'encanta!        
 Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!

(Autora: Florbela Espanca)

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