UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

LIVRO: A Aia da Rainha


Category:Books
Genre: Literature & Fiction
Author:Barbara Kyle

Sinopse: Londres, 1527. Casar ou servir. Para Honor Larke, a escolha é clara: pouco disposta a morrer de tédio como esposa obediente, ela deixa a casa do seu tutor, o brilhante sir Thomas More, e torna-se aiia da rainha Catarina de Aragão. Um cargo onde aprenderá muita coisa, dado que terá de conviver com o orgulho, a paixão, a ganância, e ainda a consciência de um rei, que anseia desesperadamente pelo divórcio, a fim de poder casar-se com a ousada Ana Bolena.
Honor, aia e fiel amiga de Catarina de Aragão, não pode compactuar com o ultraje que é feito à rainha e oferece-se para ser portadora da correspondência entre Catarina e os seus aliados. No meio desta intriga palaciana, Honor fica subitamente na posse de um segredo que pode destruir um reino e a sua futura rainha.

*******

Depois de uma infância de contornos trágicos, Honor Larke torna-se na protegida de sir Thomas More. Chega um momento, contudo, em que se torna necessária a escolha entre casar ou servir como aia de Catarina de Aragão. Optando pela segunda hipótese, o que Honor está longe de imaginar é o mundo de intrigas e conflitos em que se prepara para entrar.
Escrito de forma fluída, mas com bastante atenção aos detalhes, este é um livro que facilmente nos transporta para a Inglaterra de Henrique VIII. Com um início de impacto - que nos permite criar, quase desde o início, simpatias e aversões - o enredo é envolvente e bastante viciante, não só pela forma como a autora nos apresenta os acontecimentos mais marcantes mas também pela construção das suas personagens, com as quais é surpreendentemente fácil criar laços de empatia.
Um grande ponto forte desta obra é a sua protagonista. Honor é uma mulher forte e teimosa, determinada a lutar por aquilo que acha ser a atitude correcta, mas ainda assim humana. São aliás, bem claros os seus enganos, as falhas em que por vezes acaba por cair e até alguma dúvida acerca de onde residirá a sua fidelidade. As suas motivações são grandiosas, afinal, mas nem sempre, já que parte das suas atitudes poderiam ser justificadas por algum ódio contido. E se Honor é uma personagem interessante, o mais fascinante entre todos os intervenientes deste livro, é, contudo, na minha opinião, Richard Thornleigh. Com um passado feito em parte de boémia e em parte de culpa, surge-nos como o sedutor inveterado, mas acaba por se revelar uma alma bem maior que o que vemos ao primeiro impacto. E a forma como estas personalidades aparentemente opostas acabam por se tornar no interesse fulcral da história, passando para segundo plano - mas sem por isso perder precisão - a observação das relações de corte de Henrique VIII.
Outro aspecto que achei particularmente interessante foi a caracterização de personagens históricos como Erasmo de Roterdão e o próprio Thomas More, sendo que neste último ficamos com uma visão bastante tocante do que ele poderia ter sido. E, da forma como se cruzam os caminhos destes e outros personagens se cruzam com os do casal protagonista, resulta uma história onde a criação e quebra de ligações entre os seus personagens é de importância vital, mas que, entre a contextualização histórica e a caracterização das personagens, acaba por não retirar muito ao ritmo do livro, sendo poucos os momentos mais parados.
Para mim, este foi um livro envolvente e muito marcante, com alguns momentos genuinamente comoventes e um enredo, no geral, fascinante, pelo que recomendo a todos os apreciadores do romance histórico.

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