UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Canção do Boêmio

Que noite fria! Na deserta rua
tremem de medo os lampiões sombrios.
Densa garoa faz fumar a lua,
ladram de tédio vinte cães vadios.



Nini formosa! Por que assim fugiste?
Embalde o tempo à tua espera conto.
Não vês, não vês?... Meu coração é triste,
como um calouro quando leva ponto.


A passos largos eu percorro a sala,
fumo um cigarro que filei na escola...
Tudo no quarto de Nini me fala,
embalde fumo... tudo aqui me amola.
 

Diz-me o relógio, cinicando a um canto:
— Onde está ela que não veio ainda? -
Diz-me a poltrona: por que tardas tanto?
Quero aquecer-te, rapariga linda.


Em vão a luz da crepitante vela
de Hugo clareia uma canção ardente;
tens um idílio — em tua fronte bela...
um ditirambo — no teu seio quente...


Pego o compêndio... inspiração sublime!
Pra adormecer... inquietações tamanhas...
Violei à noite o domicílio, ó crime!,
onde dormia uma nação... de aranhas...


Morrer de frio quando o peito é brasa. . .
quando a paixão no coração se aninha?!
Vós, todos, todos, que dormis em casa,
dizei se há dor que se compare à minha!...


Nini! o horror deste sofrer pungente
só teu sorriso neste mundo acalma...
Vem aquecer-me em teu olhar ardente...
Nini! Tu és o cachenê dest'alma.


Deus do Boêmio! São da mesma raça
as andorinhas e o meu anjo louro...
Fogem de mim se a primavera passa,
se já nos campos não há flores de ouro...


E tu fugiste, pressentindo o inverno,
mensal inverno do viver boêmio...
Sem te lembrar que por um riso terno
mesmo eu tomara a primavera a prêmio...


No entanto ainda do Xerez fogoso
duas garrafas guardo ali... Que minas!
Além, de um lado, o violão saudoso
guarda no seio inspirações divinas...


Se tu viesses... de meus lábios tristes
rompera o canto... Que esperança inglória!...
Ela esqueceu o que jurar-lhes vistes,
ó Paulicéia, ó Ponte Grande, ó Glória!...


Batem!... Que vejo! Ei-la afinal comigo...
Foram-se as trevas... fabricou-se a luz...
Nini! Pequei... dá-me exemplar castigo!
Sejam teus braços... do martírio a cruz.

(Autor: Castro Alves)

Nenhum comentário: