UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

terça-feira, 8 de junho de 2010

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo
de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa
de me veres eternamente exausto.

No entanto a tua presença é qualquer coisa
como a luz e a vida.
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto
e em minha voz a tua voz.

Não te quero ter porque
em meu ser está tudo terminado.

Quero só que surjas em mim
como a fé nos desesperados.
(Autor: Vinícius de Moraes)

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