UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

domingo, 6 de março de 2011

Prece

Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! 
O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! 
Tu és os nossos corpos e as nossas almas 
e o nosso amor és tu também. 
Onde nada está tu habitas 
e onde tudo está - (o teu templo) - eis o teu corpo.

Dá-me alma para te servir e alma para te amar. 
Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, 
ouvidos para te ouvir no vento e no mar, 
e mãos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e alto como o céu. 
Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos 
nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. 
Faze com que eu saiba amar os outros 
como irmãos e servir-te como a um pai.

Minha vida seja digna da tua presença. 
Meu corpo seja digno da terra, tua cama. 
Minha alma possa aparecer diante de ti 
como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, 
para que eu te possa adorar em mim; 
e torna-me puro como a lua, 
para que eu te possa rezar em mim; 
e torna-me claro como o dia para que eu 
te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. 
Dá-me que eu me sinta teu. 
Senhor, livra-me de mim. 

(Autor: Fernando Pessoa)

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