UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Cantiga


I

Em um castelo doirado
Dorme encantada donzela;
 Nasceu – e vive dormindo
- Dorme tudo junto dela.
Adormeceu-a sonhando
Um feiticeiro condão,
E dormem no seio dela
As rosas do coração.
Dorme a lâmpada argentina
Defronte do leito seu:
Noite a noite a lua triste
Dorme pálida no céu.
Voam os sonhos errantes
Do leito sob o dossel,
E suspiram no alaúde
As notas do menestrel.
E no castelo, sozinha,
Dorme encantada donzela:
Nasce – e vive dormindo
- Dorme tudo junto dela.
Dormem cheirosas abrindo
As roseiras em botão,
E dormem no seio dela
As rosas do coração !

II

A donzela adormecida
É a tua alma santinha,
Que não sonha nas saudades
E nos amores na minha.
- Nos meus amores que velam
Debaixo do teu dossel,
E suspiram no alaúde
As notas do menestrel !
Acorda, minha donzela,
Foi-se a lua – eis a manhã
E nos céus da primavera
A aurora é tua irmã.
Abrirão no vale as flores
Sorrindo na fresquidão:
Entre as rosas da campina
Abram-se as do coração.
Acorda, minha donzela,
Soltemos da infância o véu...
Se nós morrermos num beijo,
Acordaremos no céu.

(Autor: Álvares de Azevedo)

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