UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

sexta-feira, 16 de março de 2012

O Silêncio e os Barcos




As águas pela noite estão caladas
e mais barcos vão chegando à mesma foz.

As águas pela noite estão serenas
e os barcos que regressam adormecem.

Ficámos com as mãos mais apertadas
dois apenas sufocando um grande medo.

Ficámos com os olhos mais parados
que as quilhas destes barcos de segredo.

A noite aglutinou lençóis de espuma
e as areias cobriram-se de redes.

Os barcos nesta noite não arquejam,
são mudos na verdade do silêncio.

(Autor: José Carlos Gonzaléz)

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