UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Soneto da Memória



Umbral de sóis: de súbito, incendido
risco no azul. Sob o silêncio arfante,
a alma submersa em mar desconhecido,
dardo de adeus cortando o céu ressoante.

Nos sonhos da memória o dolorido
rol de presenças. Sono murmurante
do tempo ambíguo em sombra percorrido:
passos descompassados de passante

pelas trilhas de cinza, ou nas estradas
já imunes ao lume da esperança.
(Mas nas sendas da noite soam os

ecos das vozes tímidas e amadas,
e as cirandas redançam sua dança
quando as boninas dormem nos chãos nus.)

(Autor: Waldemar Lopes)

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