UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A Canção das Folhas


Vida que se desvive
por viver, vida viva,
maravilha sedenta
coroada de ecos.

Cada murmúrio pulsa
atento a cada folha,
silêncio suspendido
por uma boca eterna.

A si mesmo sussurra
o céu canções de festa,
música a sós, e sol,
água, luz, ar e erva.

Som que ilumina fundo,
incessante milagre:
eu que me sinto ouvir,
a voz que faz memória.

A árvore na terra,
a canção sob o sol,
as folhas lá no céu,
o vento em meio às folhas.

Repleto de frescura,
meu sangue reconhece
esse frigir alado:
não há mais que universo.

(Autor: Rodolfo Alonso - Tradução de José Jeronymo Rivera)

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