UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O Palhaço



Ontem, viu-se-lhe em casa a esposa morta
E a filhinha mais nova, tão doente!
Hoje, o empresário vai bater-lhe à porta,
Que a platéia o reclama, impaciente.

Ao palco, em breve surge... pouco importa
O seu pesar àquela estranha gente...
E ao som das ovações que os ares corta,
Trejeita, canta e ri, nervosamente.

Aos aplausos da turba, ele trabalha
Para encontrar no manto em que se embuça
A cruciante angústia que o retalha.

No entanto, a dor cruel mais se lhe aguça
E enquanto o lábio trêmulo gargalha,
Dentro do peito o coração soluça.

(Autor: Padre Antônio Tomaz)

Mal de Amor


Toda pena de amor, por mais que doa,
no próprio amor encontra recompensa.
As lágrimas que causa a indiferença,
seca-as depressa uma palavra boa.

A mão que fere, o ferro que agrilhoa,
obstáculos não são que amor não vença.
Amor transforma em luz a treva densa.
Por um sorriso amor tudo perdoa.

Ai de quem muito amar não sendo amado,
e depois de sofrer tanta amargura,
pela mão que o feriu não for curado.

Noutra parte há de em vão buscar ventura.
Fica-lhe o coração despedaçado,
que o mal de amor só nesse amor tem cura.

(Autora: Anna Amélia)

Vê, vê Corina, e foges se puderes



Vendo o soberbo Amor, que eu resistia
Ao seu poder com ânimo arrogante,
Mostrou-me um doce, angélico semblante
Que a própria Vênus invejar devia.

Minha néscia altivez, minha ousadia
Em submissão troquei no mesmo instante;
E o deus tirano, achando-me triunfante,
Com voz insultadora me dizia:

“Tu, que escapar às minhas setas queres,
Vil mortal, satisfaze o teu desejo,
Vê, vê Corina, e foge, se puderes”.

“Amor (lhe respondi) rendido a vejo;
Adoro os olhos seus, com que me feres,
Venero as tuas leis, teus ferros beijo”.

(Autor: Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage)

De súbito cessou a vida



De súbito cessou a vida.
Foram simples palavras breves.
Tudo continuou como estava.

O mesmo teto, o mesmo vento,
o mesmo espaço, os mesmos gestos,
Porém como que eternizados.

Unção, calor, surpresa, risos
tudo eram chapas fotográficas
há muito tempo reveladas.

Todas as cousas tinham sido
e se mantinham sem reserva
numa sucessão automática.

Passos caminhavam no assoalho,
talheres batiam nos dentes,
janelas se abriam, fechavam.

Vinham noites e vinham luas,
madrugadas com sino e chuva.
Sapatos iam na enxurrada.

Meninas chegavam gritando.
Nasciam flores de esmeralda
no asfalto! mas sem esperança.

Jornais prometiam com zelo
em grandes tópicos vermelhos
o fim de uma guerra. Guerra?...

Os que não sabiam falavam.
Quem não sentia tinha o pranto.
(O pranto era ainda o recurso
de velhas cousas coniventes.)

Nem o menor sinal de vida.
Tão-só no fundo espelho a face
lívida, a face lívida.

(Autora: Henriqueta Lisboa)

Prece



Senhor, que és o céu e a terra,
que és a vida e a morte!
O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu!
Tu és os nossos corpos e as nossas almas
e o nosso amor és tu também.
Onde nada está tu habitas
e onde tudo está - (o teu templo)
- eis o teu corpo.

Dá-me alma para te servir
e alma para te amar.
Dá-me vista para te ver sempre no
céu e na terra, ouvidos para te ouvir
no vento e no mar, e meios para
trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e alto
como o céu.
Que não haja lama nas estradas dos
meus pensamentos nem folhas mortas
nas lagoas dos meus propósitos.

Faze com que eu saiba amar os outros
como irmãos e servir-te como a um pai.

Minha vida seja digna da tua presença.
Meu corpo seja digno da terra, tua cama.
Minha alma possa aparecer diante de ti
como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol,
para que eu te possa adorar em mim;
e torna-me puro como a lua, para que
eu te possa rezar em mim;
e torna-me claro como o dia para que
eu te possa ver sempre em mim
e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me.
Dá-me que eu me sinta teu.
Senhor, livra-me de mim.


(Autor: Fernando Pessoa)