

UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA
Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.
Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.
Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]
(Autor: Fernando Pessoa)
Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.
Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.
Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]
(Autor: Fernando Pessoa)

quinta-feira, 30 de agosto de 2012
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Sobrevivência
Tudo passa, dor e riso,
venturas em róseo friso,
males que em roxo debruam.
Passam deuses, criaturas,
horas azuis ou escuras,
nuvens que alto flutuam.
Tudo passa, gesto e face,
mas a esperança renasce
. . . e as rosas continuam.
(Autora: Graciette Salmon)
venturas em róseo friso,
males que em roxo debruam.
Passam deuses, criaturas,
horas azuis ou escuras,
nuvens que alto flutuam.
Tudo passa, gesto e face,
mas a esperança renasce
. . . e as rosas continuam.
(Autora: Graciette Salmon)
Soma
De que vale ir somando a própria idade?
certo é somá-la, em dobro, no cansaço
do dia-a-dia lento, na verdade,
qual se escorresse em milenar espaço.
A compreensão da inutilidade
do gesto amigo, do fraterno abraço,
alonga o dia, alonga a soledade,
envelhecendo o coração e o passo.
O tempo, indiferente, traz enganos,
faz os minutos parecerem anos
e num segundo um século caber.
Mas, nada importa a idade acontecida:
importa apenas a canção da vida,
a letra e a melodia de – Viver!
(Autora: Graciette Salmon)
certo é somá-la, em dobro, no cansaço
do dia-a-dia lento, na verdade,
qual se escorresse em milenar espaço.
A compreensão da inutilidade
do gesto amigo, do fraterno abraço,
alonga o dia, alonga a soledade,
envelhecendo o coração e o passo.
O tempo, indiferente, traz enganos,
faz os minutos parecerem anos
e num segundo um século caber.
Mas, nada importa a idade acontecida:
importa apenas a canção da vida,
a letra e a melodia de – Viver!
(Autora: Graciette Salmon)
Intervalo
Às vezes,
Todas as dores de uma vida inteira
Gritam...
Às vezes,
Nas mãos, os gestos de perdão
Petrificam...
Às vezes,
As canções dos anjos
Emudecem...
Às vezes,
Os silêncios, numa praia derradeira
Desaguam...
Às vezes...
Só às vezes...
(Autora: Vera Muniz)
Todas as dores de uma vida inteira
Gritam...
Às vezes,
Nas mãos, os gestos de perdão
Petrificam...
Às vezes,
As canções dos anjos
Emudecem...
Às vezes,
Os silêncios, numa praia derradeira
Desaguam...
Às vezes...
Só às vezes...
(Autora: Vera Muniz)
Angelus
Ao crepúsculo, à hora da tristeza,
Quando passam noivando as andorinhas,
Na sugestiva paz da natureza
Pobre de mim! Sinto saudades minhas.
Um desalento d’alma que entorpece,
Um misto de saudade e apatia.
Banhado em sangue o sol desaparece
E lá se vai com o sol a minha alegria.
Um barulho festivo de asa com asa
Anda pelo alto e em mim – tédio e preguiça.
Da gameleira junto á minha casa
Cai uma folha anêmica e outoniça.
Cantam de longe. É a voz de alguma escrava.
Parece assim plangente e merencória,
A cantiga infantil que me ninava
E que eu guardo no fundo da memória.
A paisagem, num roxo doloroso,
Se desdobra num pálio de ametista.
Como dói o cortejo silencioso
Do pôr do sol num coração de artista!
As águas bolem... Passa de momento
Uma abelha, as antenas de ouro e pólen.
Bolem as folhas no hálito do vento,
Bole minh’alma como as folhas bolem.
Desaparece o sol... De estrada em fora
Há lamúrias e prantos de infortúnio.
Atreva chega... A noite desce... Agora
Brilha, em forma de alfanje, o novilúnio.
(Autor: Olegário Mariano)
Quando passam noivando as andorinhas,
Na sugestiva paz da natureza
Pobre de mim! Sinto saudades minhas.
Um desalento d’alma que entorpece,
Um misto de saudade e apatia.
Banhado em sangue o sol desaparece
E lá se vai com o sol a minha alegria.
Um barulho festivo de asa com asa
Anda pelo alto e em mim – tédio e preguiça.
Da gameleira junto á minha casa
Cai uma folha anêmica e outoniça.
Cantam de longe. É a voz de alguma escrava.
Parece assim plangente e merencória,
A cantiga infantil que me ninava
E que eu guardo no fundo da memória.
A paisagem, num roxo doloroso,
Se desdobra num pálio de ametista.
Como dói o cortejo silencioso
Do pôr do sol num coração de artista!
As águas bolem... Passa de momento
Uma abelha, as antenas de ouro e pólen.
Bolem as folhas no hálito do vento,
Bole minh’alma como as folhas bolem.
Desaparece o sol... De estrada em fora
Há lamúrias e prantos de infortúnio.
Atreva chega... A noite desce... Agora
Brilha, em forma de alfanje, o novilúnio.
(Autor: Olegário Mariano)
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