UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Nascer para o Além



Há quem morra todos os dias.
Morre no orgulho, na ignorância, na fraqueza.
Morre um dia, mas nasce outro. 

 Morre a semente, mas nasce a flor.
Morre o homem para o mundo, 

mas nasce para Deus.
Assim, em toda morte, 
deve haver uma nova vida.
Esta é a esperança do ser 

humano que crê em Deus.
Triste é ver gente morrendo por antecipação...
De desgosto, de tristeza, de solidão.
Pessoas fumando, bebendo, 

acabando com a vida.
Essa gente empurrando a vida.
Gritando, perdendo-se.
Gente que vai morrendo um pouco, a cada dia que passa.
E a lembrança de nossos mortos, despertando, 
em nós, o desejo de abraçá-los outra vez.
Essa vontade de rasgar o infinito para descobri-los.
De retroceder no tempo e segurar a vida.
Ausência: - porque não há formas para se tocar.
Presença: - porque se pode sentir.
Essa lágrima cristalizada, distante e intocável.
Essa saudade machucando o coração.
Esse infinito rolando sobre a nossa pequenez.
Esse céu azul e misterioso.

Ah! Aqueles que já partiram!
Aqueles que viveram entre nós.
Que encheram de sorrisos 

e de paz a nossa vida.
Foram para o além deixando este vazio inconsolável.
Que a gente, às vezes, disfarça para esquecer.
Deles guardamos até os mais simples gestos.
Sentimos, quando mergulhados em oração, 
o ruído de seus passos e o som de suas vozes.
A lembrança dos dias alegres.
Daquela mão nos amparando.
Daquela lágrima que vimos correr.
Da vontade de ficar quando era hora de partir.
Essa vontade de rever aquele rosto.
Esse arrependimento de não 

ter dado maiores alegrias.
Essa prece que diz tudo.
Esse soluço que morre na garganta...
E...
Há tanta gente morrendo a cada dia, sem partir.
Esta saudade do tamanho do infinito caindo sobre nós.
Esta lembrança dos que já foram para a eternidade.
Meu Deus!
Que ausência tão cheia de presença!
Que morte tão cheia de esperança e de vida!

(Autor: Padre Juca - Adaptação: Sandra Zilio)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Antídoto



Me ensina agora
Como fazer 
Para viver sem você.
Me diz como não te esperar
Quando uma porta se abre
Ou o sol se levanta.
Diz como posso desamar
Se esse amor está tão colado em mim;
Ache as palavras certas
Que convençam meu coração
Que amores vão e vêm
E que chegou o momento
De você ir.
Ache pra mim a fórmula
Que mate o desejo de vez,
Que acabe com essa dor,
Ou transforme esse amor
Em algo banal.
Você me ensinou a te amar!...
Só você pra trazer de volta
O sentido de antes,
Para me ensinar
Como fazer
Para viver sem você.

(Autora: Letícia Thompson)

Flor de todos os tempos



Dantes a tua pele sem rugas,
A tua saúde escondia o que era tu mesma.
Aquela que balbuciava,
quase inconcientemente:
'Pode entrar'
A que me apertava os dedos
desesperadamente com medo de morrer.
A menina.
O anjo.
Aflor de todos os tempos.
A que não morrerá nunca.
(Autor: Manuel Bandeira)

Quando me sinto fraca, então é que me faço forte



Sei que Deus não me criou
para que me sentisse derrotada
pelos problemas que a vida me apresenta.
Deus não me criou para o desânimo
que insistente bate à porta de meu coração,
sempre que alguma coisa não dá certo.
Ele não quer ver esta ruga
que aparece em meu rosto,
refletido no espelho,
sinal de toda a preocupação
que ocupa minha mente.
Ele sabe que se hoje
as coisas não me parecem bem,
amanhã, à luz de um novo dia,
elas me parecerão menos graves,
do que o impacto que me causaram.
Ele sabe, que não obstante,
à pequenez de minha fé,
sinto que posso contar
com a Sua proteção.
Sabe que tenho a certeza absoluta
de que não colocará em meus ombros
peso maior do que eu possa suportar.

Sabe que entendo
que essas experiências desagradáveis
pelas quais passo em minha vida,
servirão apenas para
evoluir e fortalecer meu espírito
e enriquecer meus conhecimentos.
E é por tudo isso,
que não devo esmorecer,
não devo dar ao meu inimigo,
seja ele quem for,
físico, moral ou espiritual,
o gosto da vitória sobre mim.
Deus me criou para ser amada,
principalmente por mim mesma!
Deus me criou para vencer!
Sempre!

(Autora: Rosi Mori)

Prece de Gratidão



Senhor, muito obrigado, 
pelo que me deste,
pelo que me dás!
Pelo ar, pelo pão, pela paz!

Muito obrigado, 
pela beleza que meus olhos 

vêem no altar da natureza.
Olhos que contemplam o céu
cor de anil, e se detém na terra verde, 
salpicada de flores em tonalidades mil!
Pela minha faculdade de ver, pelos cegos 
eu quero interceder, por aqueles que vivem 
na escuridão e tropeçam na multidão...
...por eles eu oro e a Ti imploro comiseração, 
pois eu  sei que depois dessa lida, numa outra vida,
eles  enxergarão!


Senhor, muito obrigado pelos ouvidos meus,
que me foram dados por Deus.
Ouvidos que ouvem o tamborilar da chuva no telheiro, a melodia do vento nos ramos do salgueiro, a dor e as lágrimas que escorrem no  rosto do mundo inteiro.
Ouvidos que ouvem a música do povo, que desce do morro na praça a cantar.
A melodia dos imortais que a gente ouve uma vez e não se esquece nunca mais.
Diante de minha capacidade de ouvir, pelos surdos eu te quero pedir, pois eu sei, que depois desta dor, no teu reino de amor, eles voltarão a ouvir!

Muito obrigado Senhor, pela minha voz! 
Mas também pela sua voz,  que canta, que ensina que consola. 
Pela voz que  com emoção, profere uma sentida oração!
Pela minha capacidade de falar, pelos mudos eu 
Te quero rogar, pelos que sofrem de afazia, 
não falam de noite, não cantam de dia.

Muito obrigado Senhor, pelas minhas mãos, 
mas também pelas suas mãos.
Mãos que  aram, que semeiam, que agasalham
Mãos de caridade, de solidariedade.
Mãos que apertam mãos.
Mãos de poesias, de cirurgias, de sinfonias, 
de psicografias, mãos que numa noite fria, lava louça numa pia.
Mãos que à beira de uma sepultura, 
abraça alguém com ternura, num momento de amargura.
Mãos que no  seio, agasalham o filho 
de um corpo alheio, sem receio...

...e os pés que me levam a caminhar, 
sem reclamar, eu te quero louvar.
Porque eu vejo na Terra amputados, deformados,
aleijados, desgraçados... e eu posso bailar!!... 
Por eles eu oro, e a ti imploro, porque eu   
sei que depois dessa expiação, numa outra situação, 
eles também bailarão.


Por fim Senhor, muito obrigado pelo meu lar! 
Mas também pelo seu lar, pois é  tão maravilhoso ter um lar.
Não importa se este lar é uma mansão, 
um ninho, uma casa no caminho, um bangalô, 
um grabato de dor, seja lá o que for! 
O importante é que dentro dele exista a presença do amor!
O amor de mãe, de pai, de irmão...
De alguém que nos dê  a mão, 
nem que seja a presença de um cão, 
porque é tão doloroso viver na solidão!


Mas se eu a ninguém tiver, nem um teto para 
me agasalhar, uma cama  para eu deitar, 
um ombro para eu chorar, ou alguém para eu desabafar,   
não reclamarei, não lastimarei, nem blasfemarei.
Porque eu Te tenho a Ti, muito obrigado porque eu nasci, 
Pelo teu amor, muito  obrigado Senhor!

(Autora: Amélia Rodrigues - Psicografado por Divaldo Franco)