UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

domingo, 29 de abril de 2012

As Duas Flores



São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez no mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas

Das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bem como os prantos,

Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.


Unidas... Ai, quem pudera

Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!

(Autor: Castro Alves)

Qualquer que seja a chuva


Qualquer que seja a chuva desses campos
devemos esperar pelos estios;
e ao chegar os serões e os fiéis enganos
amar os sonhos que restarem frios.

Porém se não surgir o que sonhamos

e os ninhos imortais forem vazios,
há de haver pelo menos por ali
os pássaros que nós idealizamos.

Feliz de quem com cânticos se esconde

e julga tê-los em seus próprios bicos,
e ao bico alheio em cânticos responde.

E vendo em torno as mais terríveis cenas,

possa mirar-se as asas depenadas
e contentar-se com as secretas penas. 

(Autor: Jorge de Lima)

Vem amiga



Vem amiga; darte-ei a tua ceia
e a comida que acaso desejares,
e algum poema que ilumine os ares
menos que a luz malsã dessa candeia.

Aqui terás o peixe desses mares

e o mais gostoso mel de toda a aldeia.
De onde vens? De que cimos? De que altares?
Que luz angelical te agita a veia?

Como te chamas vida da outra vida,

espelho noutro espelho transmudado,
lume na minha luz anoitecida?

Serás o dia à noite do outro lado

de meu ser que nas trevas se apagou?
Ou serás qualquer lume que não sou? 

(Autor: Jorge de Lima)

Escrever, prolongar o tempo



Não posso escrever 
enquanto estou ansiosa 
ou espero soluções porque em tais 
períodos faço tudo para que as horas passem;
 e escrever é prolongar o tempo, 
é dividi-lo em partículas de segundos, 
dando a cada uma delas uma vida insubstituível.

(Autora: Clarice Lispector)

Rumor



Acorda-me
um rumor de ave.
Talvez seja a tarde
a querer voar.

A levantar do chão

qualquer coisa que vive,
e é como um perdão
que não tive.

Talvez nada.

Ou só um olhar
que na tarde fechada
é ave.

Mas não pode voar. 

(Autor: Eugênio de Andrade)