UMA NÉVOA DE OUTONO O AR RARO VELA

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

(Autor: Fernando Pessoa)

  

  

 

 


 

sábado, 8 de novembro de 2014

Da minha janela

Desta janela aberta aos eflúvios de abril,
Vendo os que vão e vêem, a alma sonha e medita:
- “Pela vida a lutar nesta faina febril,
Este e aquele aonde vão? de onde vêem nesta grita?”

O que se ama ou se odeia ou se busca ou se evita,
Tudo se cruza aqui numa trama sutil.
- Quantos a morte leva ou seja nobre ou vil,
Enquanto em pleno sol o vivente se agita? –

E penso então que desde o tempo mais distante
A rua vê correr a humana vaga, e nela
Nada mudar da vida o drama palpitante.

E que outras ondas sempre aqui virão rolar...
Sempre as mesmas! Porém, desta minha janela,
Outros – não eu! – virão vê-las ir e voltar...

(Autora: Joséphin Soulary)

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